Da Coragem e do Medo

Como ensinar a coragem aos nossos filhos


Coragem s. f. firmeza de espírito, energia diante do perigo. intrepidez. ânimo. 4 valentia. perseverança. 

(in Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Texto Editores, 2007)

Deixar para trás as angústias e os medos e avançar. Sentir o frio na barriga, as pernas a tremer, o coração a querer saltar do peito e, mesmo assim, continuar. É isto a coragem? O que temos a ensinar aos nossos filhos sobre isto? Quando têm medo do escuro ou de ficar sozinhos. Quando imaginam que há monstros em todos os sons e em todas as sombras. Quando querem subir ao escorrega ou saltar de uma muro. E as nós próprias? Que podemos nós aprender sobre isto da coragem, todos os dias?

Enquanto somos crianças, há uma fase em que acreditamos que somos os mais corajosos do mundo. Ou, pelo menos, assim tentamos parecer aos olhos dos outros. Dizemos que não temos medo de nada e que nada nos assusta, mas com o chegar da noite, já seguros nos braços de quem nos quer bem, vamos despindo a capa de super-heróis e vemos em tudo uma potencial ameaça.

Já adultos, enfrentamos o dia-a-dia com “coragem”. Acordamos dispostos a enfrentar o mundo mais uma vez. O trânsito, o emprego, o chefe, os afazeres, as birras… É assim que tem de ser. Há contas para pagar, uma casa para gerir, crianças para criar e um sem fim de responsabilidades que não nos permitem fraquejar.

Dentro de nós, contudo, há uma voz que noz diz que ter coragem não é bem isto. Isto é só andar em piloto automático, a deixar passar o tempo à nossa volta sem que sejamos parte ativa da nossa própria vida.

Com o passar do tempo, essa voz torna-se cada vez mais percetível. De voz passa quase a grito e é impossível manter tudo como está. E, então, procuramos bem dentro de nós o que nos poderá ajudar a vivermos de forma mais consciente, a conhecermo-nos melhor, a estarmos verdadeiramente mais presentes na nossa própria vida.

E se, a mim, esse grito me fez perceber que o meu caminho passa por ter um projeto meu, que reflita quem eu sou, os meus valores e a minha forma de estar, para outros esse grito pode ser outra coisa qualquer, totalmente diferente.

Persistência Mães Filhos Sair da zona de Conforto

A coragem passa sempre por algo intrinsecamente nosso, inimitável. A minha coragem é procurar em mim mesma, todos os dias, força para tratar dos meus filhos sem cair constantemente na rotina acordar-pequeno-almoço-escola-casa-banho-jantar-cama. É sair da minha zona de conforto, esquecer os horários por um dia que seja e ir até ao parque com os dois. É largar o meu lado de control freak e deixar que brinquem e corram sem que tenham de me ouvir que nem um disco riscado a dizer “Cuidado!” a toda a hora. É procurar caminhos válidos para conseguir chegar onde quero nesta aventura de ser mais do que mãe que agora estou a (re)começar.

A nossa coragem mede-se pelo tamanho dos desafios a enfrentar. Há quem enfrente dificuldades que me são impossíveis sequer de imaginar e que, se entrarmos em comparações, facilmente me deixam a um canto. Basta pensar no que aconteceu há uma semana. Aquelas pessoas que têm de recomeçar verdadeiramente, do nada, terão de encontrar nelas próprias A coragem para seguir em frente.

Mas isto da maternidade – e da vida em geral – não é (não pode ser) uma competição. O que é melhor para mim não será certamente para outros, que têm vivências e expectativas diferentes das minhas; o que é um desafio para mim será apenas mais uma tarefa rotineira para outros. A minha verdade não tem de ser a verdade dos outros.

É também assim que vejo a coragem e é assim que a tento mostrar aos meus filhos. A nossa coragem pode estar nas coisas aparentemente mais simples. Pode estar em levantar da cama de manhã ou em dormir às escuras, em descer um escorrega ou dar um mergulho, em fazer uma viagem sozinha com os miúdos ou em deixar a família para ir trabalhar para longe, em dar os primeiros passos sem apoio ou saltar de para-quedas.

A coragem existe sempre que nos desafiamos e enfrentamos os nossos medos. Sejam eles quais forem e tenham o tamanho que tiverem.

Medo de arriscar Mães Filhos

Medo s. m. 1 terror. 2 receio. 3 susto. 

(in Novo Dicionário da Língua Portuguesa, Texto Editores, 2007)

E se acredito que todos temos em nós coragem, sei que todos temos medos. Quando somos mães (e pais), o medo apodera-se de nós. Medo e felicidade em medidas iguais. Medo de falhar, de não correspondermos às expectativas, de não darmos um bom exemplo, de não os conseguirmos proteger, de os protegermos demasiado… Não sei se existe um ato de coragem para cada medo em cada um de nós. Até porque estes medos de mãe/pai nunca desaparecem, mesmo que, devagar, consigamos ir avançando e descontraindo à medida que o tempo vai passando e que vamos ficando mais confiantes. Eles crescem, os medos evoluem e passam a ser outros. E nós voltamos a reformular a nossa coragem, a procurar dentro de nós a confiança para acreditar que vai correr tudo bem.

Tudo o que fazemos refletir-se-á nos nossos filhos. Se nos deixarmos limitar pelo que nos assusta, eles vão interiorizar isso como sendo o certo e, muito possivelmente, vão replicar o nosso comportamento. Os nossos medos de que se magoem física ou emocionalmente são só os NOSSOS medos. Limitá-los em função dos NOSSOS medos impede-os de arriscar. E arriscar nos primeiros anos, com a nossa supervisão e a nossa garantia de segurança, dar-lhes-á autoconfiança para explorar o mundo, ganhar asas e enfrentar cada mudança sem grandes sobressaltos. Não é isto que queremos, afinal?

Quando fomos para Moçambique tive muito medo da mudança. Não por mim, mas pelo meu filho, na altura com 2 anos e meio. Outro país, outra casa, outra escola, outros amigos. Admito que cada criança possa reagir à sua maneira, mas sei que tudo isso o tornou mais forte. Acredito que o mais importante foi ele ter a certeza de que o seu núcleo se mantinha. Eu era o elemento constante. Cá e lá. E quando eu estava mais ausente, porque tinha mais trabalho, percebia-se nele (e nas birras) a instabilidade que isso lhe causava.

A mudança pode ser vista como desafiante, excitante, mas assusta, seja ela qual for. Digam o que disserem, assusta. O conhecido é sempre muito mais confortável e ninguém gosta de se sentir desconfortável. Em que idade for. Crianças ou adultos, vivemos numa luta permanente entre o que sabemos que conseguimos fazer e o que queremos ser capazes de fazer.

E, no fundo, todos sabemos que só crescemos verdadeiramente quando somos capazes de sair da nossa zona de conforto. Afinal, o mais certo é haver todo um mundo novo para lá do nosso medo.


Sílvia

Lá fora:

Uma atividade (tão simples e tão rica, ao mesmo tempo) para fazer com eles quando os sentirmos mais inseguros.

Esta animação:



P.S. No dia em que escrevi este post soube, depois, que a Sofia tinha comprado este livro à filha mais velha. Fica mais esta sugestão.

Créditos ilustrações: Lucy Fleming
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