Os filhos (também) crescem sem nós por perto

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Não sei se sou uma mãe-galinha, mas o facto é que é raro estarem sem mim. Ou estão na escola. Ou estão comigo. É certo que as circunstâncias, de certo modo, nos obrigam a isso, mas também não deixa de ser verdade que sinto grandes dificuldades no desapego.

Às vezes, pergunto-me se não encontro nas circunstâncias a desculpa perfeita para os manter aqui, debaixo da minha asa. E arrepio-me só de pensar que sim, que pode ser, realmente, uma desculpa. Acho sempre que comigo estão mais seguros. Acho, no fundo, que posso controlar. Mentira. Ninguém controla. Basta 1 segundo para tudo mudar. Basta estar no sítio errado à hora errada. Mas penso sempre que, se for preciso, eu estou ali. Posso sempre fazer alguma coisa. Se for preciso.

E, no entanto, sei que isto não está certo. Não posso – nem quero – ser aquela mãe que os sufoca. Quero que tenham liberdade para caminharem pelo seu próprio pé. E quero, também, que tenham confiança para poderem regressar ao meu colo sempre que precisem.

Sei que os meus filhos não são verdadeiramente meus. São deles próprios. São do mundo. Pelo contrário, eu é que sou deles e levam um pedaço de mim para onde quer que vão.

Confesso que é um exercício (difícil) largá-los, aos poucos, para o mundo. Por enquanto, comecei com o mais velho. 5 anos. Ambiente controlado, claro. A casa dos avós. Mas isto não impediu que o meu coração ficasse do tamanho de uma ervilha. Não impediu que, à noite, antes de me deitar, entrasse no quarto dele para o aconchegar e, só ao ver que a cama estava vazia, me lembrasse de que estava a crescer longe de mim. Feliz. (Mas longe de mim.)

Não posso falar de síndrome de ninho vazio, porque a mais pequena enche a casa, embora também ela sinta muito a falta do irmão quando ele não está e pergunte 1500 vezes por ele. Mas mesmo que estes meus sentimentos não reflitam um estado psicológico digno de constar nos livros da especialidade, a verdade é que não consigo estar completamente tranquila quando não os tenho perto. Sobretudo nas primeiras horas (ou será dias?). Depois, os medos desta mãe vão-se transformando em saudades. E em orgulho, porque se ele está bem e a divertir-se, a criar memórias sem mim, é também porque vamos sendo capazes de o ensinar a ser autónomo.

Vou lendo por aí que também faz bem aos pais passar uns dias sem filhos. Acredito que sim. Nós, por diversas razões (ou desculpas?!) ainda não conseguimos tal proeza. O máximo foi uma noite ou outra, ainda a R. não tinha nascido. Este ano foi o primeiro em que o F. foi uns dias para casa dos avós. Com ele, trouxe histórias e memórias que, estou certa, vai guardar para sempre. E trouxe saudades. Nossas, claro, mas também do seu quarto e dos brinquedos, dos livros e até das nossas rotinas e da forma como nós fazemos as coisas. E, só por isto (que já é tanto), vale a pena fechar o nosso medo numa gaveta bem no fundo do coração e deixá-los voar, mesmo que seja fora da nossa vista.

Mas como é difícil esta gestão entre querer dar-lhes mundo e querer mantê-los perto… E isto de passar uns dias em casa dos avós não é nada, eu sei. Afinal, só estou no início da caminhada. (Ufa! Que ainda me faltam uns anos até à adolescência…)

Aí em casa como é? Mães e pais: também têm estes sentimentos bipolares?

Sílvia

Lá fora: para ver e para ouvir.




Créditos imagem| Gustav Klimt

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2 comentários

  1. Eu, mãe galinha, me confesso! Mas a verdade é que hoje com 2 traquinas de 8 e 4 anos, preciso, por vezes, de um certo desprendimento. A maioria das vezes só o consigo quando vou de férias a Portugal, 3 vezes por ano. A morar em Angola desde 2007, sempre tive família longe ou pouco presente, pelo que os meus filhos andam sempre debaixo da minha asa, não só por a família estar longe, mas também por uma questão de segurança. Sou daquelas que prefere os amigos a brincar lá em casa do que os deixar ir brincar a casa dos amigos. Aqui em Angola, são raros os fins de semana em casa dos avós paternos (quase que obrigados...) mas em Portugal, com os meus pais e a minha irmã por perto, consigo abstrair-me um pouco e até gozar alguns dias longe deles, sabendo que estão felizes e bem entregues. Há que encontrar o meio termo, nem sempre fácil. Mas para quem os carrega quase que 24h sobre 24h, ainda que estejam na escola grande parte do tempo, o tempo só para nós, mesmo que em casa, também é crucial. Digo eu, que parece que tenho dois pega monstros...

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    1. Creio que só mesmo o tempo é que nos pode ajudar nesta tarefa do desapego. Tempo e treino, assim, em doses moderadas, de vez em quando... :)

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