A imperfeição da perfeição | Considerações da mãe que fica em casa


Embaladas pela leitura do Pais à Maneira Dinamarquesa, começámos a pensar na (falsa) questão da perfeição. Quem nos impõe a perfeição? Os outros, a sociedade? Ou nós próprias? Que proporções assume a expectativa de perfeição nas mães que estão em casa?

Se, por norma, já paira sobre todas nós esta nuvem de que estamos a ser constantemente avaliadas (pelo marido, pelos filhos, pelas amigas, pelas mães dos amigos dos filhos, pela sogra, pela nossa própria mãe...), a mãe que fica em casa sente - ainda mais - o peso de ter de ser a mãe perfeita: na mesa só pode haver comida saudável, os filhos têm de andar sempre bem vestidos, com a roupa impecavelmente engomada e sem qualquer tipo de nódoas, tem de lhes proporcionar as atividades mais estimulantes, os programas mais espetaculares e preparar as festas de aniversário mais divertidas.

As outras, as mães que trabalham (também) fora de casa, podem ter a "desculpa" da falta de tempo. Tiveram uma reunião. O chefe pediu-lhes um trabalho de última hora. Havia um projeto para fechar. O que for... 

E as mães que ficam em casa? Que "desculpa" têm para não fazer perfeito? Como é que não tiveram tempo? Então, mas não estão em casa todo o dia? 

E este é um peso que nos colocam ou somos nós que nos impomos esta obrigação?

Se há uma atividade na escola em que é pedido aos pais para colaborarem, as mães que estão em casa são logo indicadas como as que têm mais tempo para ajudar (ou seremos nós que sentimos essa obrigação e nos oferecemos?). Damos por nós a oferecer ajuda para transportar colegas e amigos de uma atividade para uma festa de aniversário, porque - lá está - supostamente temos tempo e disponibilidade, ao contrários dos pais e mães que têm um emprego "a sério". E mesmo apesar de, por vezes, estarmos atoladas em roupa para tratar e com limpezas em atraso, não concebemos a hipótese de pedir ou contratar ajuda porque o dinheiro também não estica. Não, calma! Como é que -ainda - há roupa para passar e limpezas para fazer? 

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Pois, é que isto de estar em casa não é propriamente ficar de papo para o ar no sofá, a papar tudo o que é programa de televisão. Estar em casa é ter um trabalho que não é das 9h às 18h. É um trabalho das 7h às 22h, quando a coisa corre bem. É ter um trabalho que é vida pessoal e familiar e uma vida pessoal e familiar que é trabalho. É um trabalho sem folgas, sem férias, com horas extra não remuneradas e sem 13.º mês. E como se isso tudo não bastasse, como se não fosse já mais do que suficiente, esta mãe, que fica em casa e que tem a mania que consegue fazer tudo sozinha, ainda se envolve em projetos (e sonhos) que - pasmem-se - dão trabalho e roubam horas de sono. Tudo para ser quem verdadeiramente é e para viver de acordo com aquilo em que acredita: viver uma vida imperfeitamente perfeita.

Às mães que ficam em casa, às que não ficam porque não querem e às que não ficam porque não podem: não há maior perfeição do que sermos fieis a nós próprias e aos nossos valores e concentrarmo-nos no que temos e no que, todos os dias, conseguimos alcançar - mais do que naquilo de que tivemos de prescindir.

(Um texto de nós para nós.)

Lá fora: A perfeição dos dias imperfeitos pela lente da Luciane Valles.


Créditos Imagens | Vladimir Malyutin e rawpixel


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2 comentários

  1. Tão verdade, também sou uma mãe que fica em casa.
    Adorei este texto, não conhecia o teu blog, mas já estou a seguir.
    Beijinhos,
    Cristina
    Blog Simply by Cristina

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    Respostas
    1. Obrigada pelo feedback, Cristina. :)
      Vamos espreitar o teu. Um beijinho,
      Sílvia e Sofia

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